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Manifesto Livre 01 (meados 2007/08 – da contagem errada!)

Posted in Uncategorized with tags on abril 4, 2008 by goura

Dificilmente é necessário apontar aqui os diversos problemas pelos quais o mundo passa em nossa época. Quando o sistema de acumulação de mercadorias chega ao ponto de quebra atual, as suas deficiências se tornam evidentes, e mesmo seus aduladores mais hipócritas não escondem que, afinal, algumas coisas vão mal. É como um prédio cujas diversas rachaduras já se tornaram visíveis, quando os pilares estavam, na verdade, podres desde o princípio.
            Para além da caridade direitista que equaciona democracia com capitalismo, e da pseudo-revolta institucionalizada da esquerda sempre à procura de um novo Stálin, os mais diversos grupos de atuação têm surgido, à margem, experimentando novas conexões entre política e arte, subsumindo esferas separadas da experiência em algo maior e tão escamoteado pelas formas tradicionais de participação política, isto é, a vida.

É nesse contexto que surge a Jardinagem Libertária. Nós, praticantes, estamos há algum tempo exercendo nossas atividades, e é chegado o momento de declarar ao mundo nossos propósitos e métodos.

   O homem-objeto ressoa ainda o eco de quando tinha raízes, em si e no mundo, que o alimentavam. Ele angustia longinquamente o tempo que não tem mais para desentranhar mundos. O tempo esvaiu-se. É preciso continuar, continuar, continuar. O homem secou e se transformou em um quê que apenas é. Que não se sente sendo. A monotonia da arquitetura e os excessos do apelo comercial o mantêm entretido. Seu corpo, suas roupas, sua casa, sua identidade e seu planeta, cada qual etiquetado previamente sem que se saiba direito como (pouco importa, e além do mais, o que importa vem no pacote), chegam a ele facilmente e com desconto.
  
O homem-objeto olha a sua volta e uma poesia má o assola, sem que ele se dê muito bem conta disso. Um nonsense grosseiro e apressado o atropelou tempos atrás e ele não anotou a placa. Certamente corria atrás de algo que não lhe dizia respeito. E ele se pergunta: “o quê, afinal de contas, me diz respeito? Porque aquele pacote me chega todos os dias com quês que simplesmente não me dizem respeito?Mas sim”, dirão os encaixotadores, “trata-se do seu corpo, de suas roupas, de sua casa, de sua identidade, do seu planeta. Nós estamos lhe prestando um grande serviço. É tudo quanto você precisa e você deveria nos agradecer, trouxemos para você.” O homem-objeto agradece, dá uma gorjeta e sai caminhando pelas ruas. Talvez nas ruas seu corpo pudesse ocupar o espaço de que tanto precisa. Acontece que nas ruas nada lhe diz respeito, excetuando-se as ofertas e o código de trânsito. Ele então fica em silêncio, pois em seu corpo certamente está o espaço de que tanto precisa. Entranhar-se, o alimentaria. Mas um corpo marcado por anos de agressão simbólica não responde facilmente a um apelo desses. Ele então vai a uma loja comprar roupas novas para se sentir melhor. Vai comprar uma identidade ótima. Embora ainda angustie longinquamente o tempo que não tem mais para desentranhar mundos, pois ele esvaziou-se. Secou e se transformou em um quê que apenas é. Não se sente sendo. Vai até o pacote e procura algum lugar no planeta onde talvez pudesse ser, mas as notícias não são nada boas. O planeta vai de mal a pior.
  
O que faz o homem-objeto? O homem-objeto está empregado ou não está sendo empregado? Se não está, não pode atrapalhar, senão vai para o depósito de entulhos. O homem-objeto já passou por lá, atulhado com tantos outros. E também já foi empregado, sonhando tornar-se empregador. Até se dar conta que era apenas para se vingar de ter sido empregado como um objeto. Mas ele não deixaria de ser o objeto que é, e que não quer mais ser. Ele quer outra coisa. Ele angustia longinquamente o tempo que não tem mais para desentranhar mundos. Caso quisesse, o homem-objeto poderia deixar de sê-lo? E ele se pergunta, o que poderia meu corpo, minhas vestes, minha casa, minha identidade, meu planeta? Ele não responde a essas perguntas por que o atropelamento deixou marcas indeléveis em seu corpo, suas vestes, sua casa, sua identidade e seu planeta. Um nonsense grosseiro.
  
E nada o aproxima de tudo quanto vem até ele devidamente etiquetado. Nada. Uma poesia do nada o invade. Finalmente. E mergulhado no nada, o homem-objeto torna-se o nada. Deixara de ser. Finalmente, o nada. Finalmente. Um princípio possível? Finalmente algo que chegasse às suas entranhas e ecoasse raízes? Alimentando deveras? Desentranhado de um mundo alheio a ele, saboreia uma nova poética. Um abandono poético. Um delírio raro e claro. Nu, o homem percebe seu corpo. Um nada em potência de algo. E testemunha o vir-a-ser de um corpo nu em um corpo sendo. E o homem sai pelas ruas, nu. E toma, nu, um café na esquina. Percebe que também há árvores nuas pelas ruas. E confraterniza com elas! Os olhos umedecidos, o sangue pulsando forte com essa nova emoção. O resto do mundo quase quer acompanhá-lo, mas apressado continua e continua. Não é hora de divertir-se, e ele quase é mandado para o depósito de entulhos, por desviar os outros de seus objetivos-etiquetados. Um homem nu, que começa agora a sentir-se sendo, vai vestir-se. Naturalmente. E ele desenha suas próprias roupas, costura seus sapatos e não deixa que uma só linha reta negue a alegria em que se imergira. Do nada. Do nada ele reconstruiu sua identidade. Plantou árvores por todos os lados. E saiu pelo mundo ocupando os espaços vazios, observando e observando-se, desentranhando mundos e re-encantando as ruas.
  
Ia estação, e vinha. E o homem brindava e segredava: em sua casa nada permanecia. E frondoso se espraiava.

A Jardinagem Libertária está atenta ao nada, ao chamado dos buracos vazios, das frestas na calçada, dos espaços áridos, das praças incandescentes no verão, das crianças sem árvores para escalar, sem frutas para catar do pé…

O mundo anseia por ser paradisíaco, embora o trator passe por cima sem dó. Não se trata de pensar no assunto, mas do gesto, do impulso, do detalhe. Uma semente aqui, uma rega ali. Uma lua para esperar, uma estação de águas…

Uma escuta atenta mostra o que fazer. A gente aguça a sensibilidade e percebe que há espaços vivos querendo brotar. Então dá uma mãozinha, observa, cuida para que não morra. E não morre, pois cada dia é um recomeço.