Arquivo de janeiro, 2009

Jardinagem Libertária em Guimarães Rosa

Posted in Uncategorized with tags , , , , , , , on janeiro 9, 2009 by goura

Em um suave anoitecer de Copacabana, no século passado, mas parecendo num tempo muito remoto, Guimarães Rosa sai para um passeio com seu amado pequinês Sung e encontra o poeta Drummond, na vigília amorosa de sua frágil amendoeira-infante. Rosa escreve a crônica/poema “Além da Amendoeira” e Drummond o “Fala, Amendoeira”.
 
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ALÉM DA AMENDOEIRA
   Vai, vez, um fim de tarde, saía eu com o Sung, para nosso passeio, que era o de não querer ir longe nem perto, mas buscar o certo no incerto, a tão bom esmo. Só me esquece a data. Cumprindo-nos, também, conferir as amendoeiras.
   Seria em março – as frutinhas do verde já boladas? Pode que em abril: as folhas birutas, com lustro sem murcho, dando ponto às sanguíneas e às amarelinhas de esmalte. Se em maio, aí que, por entre, frequentam e se beliscam um isto de borboletas, quase límpidas, e amadurecem as frutas, cheirando a pêssego e de que os morcegos são ávidos? Talvez em junho, que as drupas caídas machucam-se de ilegíveis roxos. Também julho, quando se colorem ainda mais as folhas, caducas, no enrolar-se, vistosas que nem as dos plátanos de Neuilly-sur-Seine ou de San Miniato al Monte, e as amendoas no chão são tantas? Seja em agosto – despojadas. Ou em setembro, a desfolha espalhando nas calçadas amena sarapueira, em que feerem ainda árduos rubros. Sei não, sempre é tempo de amendoeira.
    Mas, pois, descíamos rua nossa vizinha e simpática, eu a considerar na mudável imutabilidade das coisas, o Sung a puxar-me pela trela, quando, eis senão, passávamos rente a uma casa, inusual, tão colocada, suposta para recordar as da outra idade da gente, no Belorizonte. Dita que era uma aparição, conforme se ocultava, às escuras, o que dela se abrindo sendo só uma varanda de arco, perfeita para o escuro, e que se trazia de estórias – a casa na floresta, da feiticeira. Sob cujo efeito, sorte de adivinhamento, refiz-me fiel ao que, por onde ando, muito me aconselho: com um olho na via, o outro na poesia.
    De de-dentro, porém, e reta para a varanda, pressentia-se tensa presença. Súbito, com elástico pé-ante-pé, alguém avançara de lá, a furto. Já de noite, às pardas, à primeira não se distinguia: sombra ou resumo de vulto. Se bem que entre luz e fusco o vulto avultasse, permanecendo, para espreita; apenas lobrigável, não visório. Até que por viva alma decifrei-o – ao bruxo de outras artes, Drummond. E só então deve de ter-me reconhecido. Ele morava, ali, à beira da amendoeira.
     Sabia-o adicto e professo nessa espécie de árvores, seu mestre de fala. Mas, a que se via e havia, entre calçada e varanda e o fementido asfalto, e que era o objeto que ele cocava, não passava de uma varinha recém-fincada, simples débil caule, e por isso amparada, necessitando uma estaca de tutela. Drummond de tudo me instruiu, e de como não fora de mero recreio, agora, aquela sua tocaia. E, como eu não pudesse aceitar de entrar, que o Sung discordava, confabulamos mesmo assim, ele no âmbito de seu rincão, semilunar, eu à sombra futura da menos que amendoeira.
     Era: que, no lugar, falhara uma, sucumbida ao azar ou aos anos, e ele arranjara que plantassem outro pé, no desfalcado. Mais de uma vez. Porque vinham os vadios e malinos, a criançada ingrata, e destruíam demais, sendo indispensável acautelá-la contra essa gente de ralo juízo ou de iníqua índole. Para o mister, Drummond já requerera a prestança de um guarda. Por enquanto, porém, velava-a ele mesmo, às horas, dali de seu promontório de Sagres.
     Sendo que falávamos, um pouco sempiternamente, unidos pelo apropósito de tão estimável circunstância, isto é, da amendoeira-da-índia ou molucana, transplantada da Malásia ou de Sequimeca, quer dizer, árvore aventurada, e, pois, de praia e areia, de marinha e restinga, do Posto 6.
     Elas pintam bem, tem outono. Dão-se com frente e perfil. Abrem-se a estórias e hamadríadas. Convem, sem sombra de dúvida, com as beiras-atlanticas cigarras. Despeito das folhas graúdas, compõem-se copas amabilíssimas, de donaire. Prezam-se de folhagem sempre a eldorar-se, em alegria e aquarela. E também ensinam acenos. São de sólida serventia.
     Ultra que a amendoeira é a que melhor resiste aos ventos, mesmo os de mais rojo, sob o tiro de qualquer tufão ela sustenta o pairo. Nem se dizendo que seja uma árvore castigada. Sua forma se afez a isso, desde a fibra, e no engalhamento, forçoso, flexível, e nos ramos que se entregam com eficaz contravontade. Se ao vendaval, as grandes amendoeiras se entornam, desgrenham, deploradoras, ele roda-as, rodopia-se, contra o céu, baço, baço. Mas há uma técnica nesse renhimento, decerto de aquisição milenar: no que temperam o quanto de sustentação de choque com a cessão esquiva ou o dobrar-se submisso, o volver os eixos para furtar-se ao abalo. E fingem a mímica convulsiva, como quando uma se estira, vai, volta, voa; isto, sim: a amendoeira procelária.
      Bem, a nossa conversa não se copiando talvez precisamente esta, pode ser mesmo que falássemos de outras coisas; mas o substrato de silêncio, que insiste por detás de todo palavreado. Só a fim de recordar. Eu com o Sung à tira, conforme ele se estendera chato no chão, desistente. E Drummond de constantes olhos em seu fiozinho de amendoeira-infante. O amor é passo de contemplação; e é sempre causa.
      Afinal, a vigilância da amendoeira se exerce indefinida, e volve-se sem intervalos sua desconfiança. Veja-se como responde, pendulativa, à aragem mais fina, só zéfiro. Toque o primeiro leve e ligeiro sopro, e já as folhas estremecem, apalpando o que haja, o tronco ensaia um balanço preventivo, os ramos a sacudir-se, diversamente, para o equilíbrio: e fazendo face. Nada apanha-as de surpresa. Fio, e me argumentei, que devem de trocar sinais entre si, e manter uma sempre de sentinela, contra o ar e o mar. Drummond concordaria comigo. Ou vice-versa, pois. Era uma célebre noite. E, se esmorecíamos, era pelos inadiáveis deveres do introvertimento.
      Mas, de longe, ainda as amendoeiras, que mútuas são, e pertinentes. Isto é, Drummond não ficara sabendo que moro também entre elas, íntimas, de janela; no verão suas sombras comovem-se nas venezianas do quarto, conforme jogam, de manhã. Vejo uma, principalmente, a um tempo muda e loquaz. Ela faz oito anos. Digo: que ele morreu, uma noite fria, de um julho, ali debaixo dela o enterramos, muito, muito. Um gato. Apenas. Chamava-se Tout-Petit, e era só um gato, só um gato, um gato… Além. Ah, as amendoeiras. A de Drummond, amendoeirinha de mama, ainda sem nem sussurros… A minha, a quem, então, às vezes peço: – Cala, amendoeira…………………

Jardinagem Libertária em Schopenhauer

Posted in Uncategorized with tags , , , , , on janeiro 9, 2009 by goura

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“Ainda assim, como a natureza é estética! Todo pequeno espaço inteiramente não cultivado e selvagem, em outras palavras, deixado livre para a própria natureza, é de pronto decorado por ela da maneira mais graciosa – é adornado com plantas, flores e arbustos, cujo desenvolvimento  fácil e irrestrito, graça natural e belo agrupamento, atestam que eles não cresceram sob a varinha da correcção do grande  egoísta, mas que aqui a natureza tem sido livremente ativa. Todo pequeno canto negligenciado imediatamente torna-se belo.

Sobre isto se estabelece o principio dos jardins ingleses que é o de esconder a arte tanto quanto possível. Pois apenas assim a natureza é perfeitamente bela, em outras palavras, mostra com grande distinção a objectivação da vontade de viver que é ainda sem conhecimento. Esta vontade se manifesta aqui com a maior ingenuidade, pois as formas não estão determinadas, como no mundo animal, por fins e objetivos externos, mas apenas imediatamente pelo solo, clima e uma misteriosa terceira coisa, em virtude da qual tantas plantas que brotaram inicialmente do mesmo solo e clima mostram, ainda assim, tamanha diversidade de formas e caracteres.

A imensa diferença entre os jardins ingleses, ou mais corretamente chineses, e os antigos jardins franceses, os quais  estão agora se tornando cada vez mais raros, mas que ainda existem em alguns espécimes esplêndidos, se assenta, em ultima analise, no fato de que os primeiros são dispostos num espirito objetivo, os outros, subjetivo. Assim, naqueles a vontade da natureza, que se objetiva em arvore, arbusto, montanhas e curso  d’água, é trazida à expressão mais pura  possível destes, suas Idéias, e assim, de seu  próprio ser interno. Nos jardins franceses, por outro lado, apenas a vontade do dono é refletida. Ela subjugou a natureza de tal forma que ao invés de suas Idéias, ela carrega, como sinais de sua  escravidão, formas artificiais impostas a força sobre ela, tais como arvores cortadas em todos os tipos de formas, linhas retas, arcos e assim por diante.” 

Arthur Schopenhauer – in Isolated remarks on natural beauty (WWR II – p.403)