Entrevista para a revista Prana Yoga Journal

1)       Quando e como este movimento começou?

 Bom, a JL existe desde sempre, não é uma idéia nova. Acho que o homem moderno tem se desconectado da natureza de uma maneira muito radical, preferindo uma vida artificial à vida verdadeira. A JL é uma forma de tentar resgatar esta conexão. No nosso caso chegamos à ela através das intervenções urbanas e de trabalhos artísticos diversos que tinham a rua como suporte. Temos um coletivo aqui em Curitiba, que existe há mais de 6 anos, chamado INTERLUX ARTE LIVRE. O termo ‘jardinagem libertária’ surgiu num contexto em que estávamos plantando árvores nas ruas da cidade, sem pedir permissão ao estado, sentindo-nos autorizados pela própria mãe natureza.
 
 
2)       De quem foi a iniciativa e qual é o objetivo deste movimento?
 
O termo surgiu numa ação nas ruas há mais de 3 anos. A idéia é uma prática de jardinagem que produza uma relação afetiva entre aquele que planta, aquilo que é plantado e o local onde se planta. As coisas devem estar entrelaçadas. Pensamos no reflorestamento urbano, na ocupação dos espaços de terra da cidade, no destino inteligente do lixo orgânico que produzimos, e em reflexões que surgem destas ações diretas: Por que deveríamos viver de maneira tão submissa? Por que não podemos agir criativamente no espaço em que vivemos? Por que temos que colocar nossas vidas nas mãos de pessoas que carecem de conhecimentos básicos sobre a natureza, o homem e a relação harmoniosa que deve existir entre eles? A JL é essencialmente anarquista e quando usamos este termos estamos tentando resgatar o que ele tem de mais positivo e provocador. Como disse Thoreau: ‘O melhor governo é o que menos governa.
 
 
3)       Com quantas pessoas começou e quantas fazem parte do movimento?
 
Começamos as atividades dentro do nosso próprio grupo aqui em Curitiba, que consiste de cerca de 10 pessoas. Atualmente existem grupos da JL em diversas cidades do Brasil – Blumenau, Porto Alegre, Cabo Frio, Campo Grande, Rio de Janeiro, São Paulo etc. Tem inclusive muita gente que pratica a JL sem saber deste nome, mas que compartilha plenamente deste espírito.
 

 

5)       Como fazer parte? O que fazer de ação e como divulgar?
 
Começe olhando para o espaço onde você vive. Observe a diversidade que existe de fauna e flora. Veja o impacto que os seres humanos tem neste ecossistema. Pergunte-se que tipo de ação é possível neste local específico onde você se encontra. Dá para plantar árvores? Flores? Hortaliças? Dá para propor um composteiro? Enfim, busque conhecimentos, aja com sabedoria e crie conexões com os demais habitantes do local. Em geral as pessoas vão apreciar o que você está fazendo, mas poucas irão além desta apreciação. Outros irão te criticar, podendo mesmo atrapalhar deliberadamente sua jardinagem. Não desanime. Se destruírem o seu jardim, seja persistente. Divulgue as ações. Espalhe cartazes e artes pelo bairro. Distribua mudas e sementes. Chame a atenção à maneira desastrosa com a qual estamos nos relacionando com a natureza. De que vale a pena viver se a vida não traz nenhuma satisfação e nossas ações são todas contrárias ao dharma, a ordem natural do cosmos?
 
 
6)       O que vocês já conseguiram com este movimento? Conseguiram algum resultado prático?
 
Conseguimos plantar mais de 40 árvores pelo bairro onde vivemos, algumas espécies já estão com mais de três metros de altura. Já distribuímos cerca de 3000 mudas. Estamos espalhando uma mensagem, procurando unir as pessoas que compartilham de um ideal de vida mais humano, criativo e pacífico. O blog tem servido pra isto – https://jardinagemlibertaria.wordpress.com/ Acho que a JL está crescendo organicamente e isto é o mais importante. Não queremos salvar o mundo. Não somos uma ONG e nem mesmo um movimento. A JL é uma idéia. Uma idéia perigosa, diga-se de passagem. Com ela podemos nos sentir ‘donos’ da cidade, participantes ativos da vida urbana cotidiana.
 
 
7)       Tem apoio ou patrocínio de alguém? O governo ou alguma ong apóiam ou ajudam de alguma maneira?
 
Não. A JL é independente. Mas é claro que se houver a possibilidade de parcerias criativas elas irão acontecer. Imagine uma política pública de hortas comunitárias, plantios coletivos, redução do lixo doméstico etc. Isto seria genial, mas nossos políticos tem outras prioridades. A natureza não está definitivamente na agenda deles. Temos que contar com aquilo que é certo – nosso próprio esforço. Pessoalmente prefiro não ter apoio algum a ter este tipo de coisa – 

 
8)       Me fale um pouco da relação do Karma Yoga e da preocupação com o meio ambiente?
 
Na Bhagavad Gita, Krishna fala que aqueles que não estão conectados ao yoga e que compartilham das qualidades dos asuras (os seres demoníacos), executam ugra-karma – ações hediondas, terríveis, que tem como objetivo a destruição do mundo. Quando abrimos um jornal e vemos o estados das coisas no planeta, quando andamos pelas nossas cidades congestionadas e poluídas, quando observamos o desrespeito completo com o qual tratamos os animais, florestas e mares, constatamos que estas atividades terríveis estão dominando nosso estilo de vida. Acho que todo yogi deve se posicionar nesta luta por um mundo mais equilibrado. Os professores devem chamar atenção a este assunto.
 
 
9)       Qual é o papel do yogi neste contexto? Você divulga estas ações entre seus alunos? Eles participam?
 
O yogi é aquele que está buscando a visão equânime, o conhecimento da essência eterna e idêntica presente em todos os seres. Também na Gita lemos que o yogi é capaz de olhar para o mundo de forma distinta, reconhecendo esta união, esta harmonia e tornando-se alguém que ilumina o ambiente ao seu redor. As qualidades do yoga são necessárias para o difícil momento em que vivemos.
 
Aqui em Curitiba todos os estudantes que chegam às nossas aulas recebem mudas para plantar em suas casas e nas ruas. Temos divulgado ativamente os princípios da JL especialmente entre a comunidade yogi, pois percebemos que é pelo ganho de consciência proporcionado pelo yoga que podemos nos abrir a demais perspectivas libertárias e de mudança. O yoga é essencialmente uma disciplina libertária.
 
 
10)   Gostaria que você me contasse as histórias mais legais que aconteceram durante alguma ação de vocês ou pessoas legais que conheceram.
 
É engraçado ver as reações das pessoas. Nossas vidas são marcadas por tanta passividade e submissão que quando alguém se coloca numa posição ativa e diz ‘Não, não vou me submeter à preguiça e indolência espiritual. Não vou me alienar. Não serei dominado por um sistema injusto’, quando alguém diz estas coisas e age de acordo, isto gera um grande espanto nos demais.
 
Uma coisa bonita que aconteceu foi há cerca de um ano, quando estava plantando uma árvore na rua, em frente ao Govardhana (nosso espaço de yoga), quando duas crianças apareçeram e pediram para ajudar. Elas colocaram a mão na terra, trouxeram água e a garota mais velha ainda deu uma lição de karma-yoga para mim e para o outro menino que estava com ela. O garoto disse: ‘Ah, mas eu nem vou ver esta árvore grande, eu nem vou comer os seus frutos‘, quando a menina o interrompeu dizendo: ‘Mas você não pode agir pensando só em você, você tem que agir desinteressadamente, por uma questão de dever.’
Aquela situação foi muito emblemática. Acho que quando estamos interagindo com a rua e com a natureza estamos nos abrindo a experiências engrandecedoras. E como disse o poeta Wordsworth: ‘A criança é o pai do homem.
 
Professora de Vedanta Glória Arieira, participando da Jardinagem Libertária em Curitiba

Professora de Vedanta Glória Arieira, participando da Jardinagem Libertária em Curitiba

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