Um pedaço de terra, um pedaço de dignidade

Rio de Janeiro. 

Ao pé do morro da Providência, bem próximo à Central, há um praça sem nome onde havia gangorras e escorregas quebrados, lixo amontoado e baratas. Esquecida por deus e pelos sucessivos governos que estiveram no poder, o local ganhou o apelido de “pracinha do crack”. Para ocupar o espaço público degradado e dar uma opção de lazer aos habitantes locais, os moradores das ocupações próximas Chiquinha Gonzaga e Flor do Asfalto resolveram organizar, para o dia 29 de março, um mutirão para retomar um espaço público que, até então, pertencia apenas às baratas.

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Rapidamente surgiu gente para ajudar. Vieram pessoas de outros bairros, trazendo enxadas, mudas de árvores e boa vontade. Vieram as crianças da favela, trazendo ajuda e alegria. Os moradores do morro e dos arredores da Central rapidamente arranjaram tintas e ferramentas. Os governos municipal, estadual e federal não vieram. E nem foram convidados.4.jpg 

O concreto, que impedia os pés das pessoas de encontrar a terra de onde vieram, foi quebrado para dar lugar à horta de chás e mudas de caqui, café, e outras da mata atlântica. O lixo que abrigava vetores de doenças, esse sim, foi levado para longe dos pés das pessoas.

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O dono da serralheria em frente contou com a ajuda de outros pela primeira vez. “Eu que plantei essas árvores que tem aqui”, disse ele. O pé de jabuticaba e o de jamelão que aquele senhor havia plantado não seriam mais as únicas árvores da qual se tirariam os frutos. “Eu vou pegar caqui aqui todo dia”, disse um menino da Providência depois de encher de terra preta a mudinha que acabara de ajudar a plantar. Aprendendo a plantar, o menino aprendeu a gerar sustento e riqueza de uma forma que não se ensina nas escolas e se deu conta, talvez pela primeira vez, que as frutas e os alimentos não nascem na fábrica e nos mercados.

Os brinquedos infantis foram consertados e pintados. As paredes, antes cinzentas e sem graça, agora encontram-se carregadas de cores e desenhos. O grafite permitiu-lhes que passassem a receber a atenção dos transeuntes e tornou em obra de arte visual o que antes era a arte arquitetônica da segregação: o muro.

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A região situa-se bem longe dos pontos turísticos. Se naquele pedaço de subúrbio não há a floresta da Tijuca, com suas matas e cachoeiras, agora há árvores e terra. Se não há as famosas praias cariocas, pelo menos agora possui um ponto de encontro. Se ali não estão os cinemas e o lazer das áreas ricas, pelo menos há brinquedos e conversa das boas. A antiga pracinha do crack, que depois da toalidade da reforma receberá um novo nome a ser escolhido, é agora um pequeno pedaço de dignidade.

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4 Respostas to “Um pedaço de terra, um pedaço de dignidade”

  1. Lindo, galera!
    ´a pequena pedra segura a grande onda!!´

  2. Nossa, que bonito!

  3. Se cada um de nós fizesse isso, fizesse um pouquinho que fosse, viveríamos numa cidade melhor e, além de tudo, reencontraríamos a solidariedade.

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