Arquivo de abril, 2008

Marcuse já falou em 1979!!

Posted in Uncategorized with tags on abril 24, 2008 by goura
A ECOLOGIA É REVOLUCIONÁRIA
 
Então, por que preocupar-se com a ecologia?
Porque a violação da Terra é um aspecto essencial da contra-revolução. A guerra, genocídio contra o povo, é também um ´terricídio´, uma vez que agride as fontes e os recursos da própria vida. Não basta terminar com as pessoas vivas: tem que se impedir a sobrevivência dos que ainda não nasceram, queimando e envenenando a terra, desfolhando os bosques, arrebentando os diques. Esta insensatez sangrenta não mudará o desenlace da guerra, mas reflete bem a situação do capitalismo contemporâneo: a cruel dispersão das forças produtivas na metrópole do imperialismo acarreta o gasto inútil de forças destrutivas e o consumo de produtos mortíferos fabricados pela grande indústria bélica.
 
Transformar a condição do homem, e seu meio-ambiente natural, para ´civilizá-lo´ – isto é, torná-lo o sujeito-objeto da sociedade de intercâmbio – tem sido uma das funções essenciais da civilização: subordinar o princípio do prazer ao princípio da realidade, converter o homem em instrumento de trabalho cada vez mais alienado. Esta transformação brutal e penosa está invadindo lentamente a natureza exterior. Certamente, a natureza tem sido sempre uma dimensão (durante muito tempo a única) do trabalho: manifestação de beleza, da tranquilidade, de uma ordem não-repressiva. Por seus valores, a natureza era a própria negação da sociedade de intercâmbio, com seus valores de lucro e utilidade.
 
O mundo natural é, contudo, um mundo histórico, um mundo social. Ainda como negação da sociedade agressiva e violenta, a natureza pacífica é obra do homem (e da mulher), obra de sua produtividade. Ora, a produtividade do capitalismo é expansionista em sua própria estrutura: reduz progressivamente o espaço natural situado fora do trabalho e as recreações organizadas dirigidas.
 
O processo que submete a natureza à violência da exploração e da contaminação é, sem discussão, um processo econômico (modalidade de produção), mas ao mesmo tempo um processo político. O poder do capital invade a natureza em todo e qualquer lugar de desafogo e evasão. É a tendência totalitária do capitalismo monopolista: é preciso que o indivíduo volte a achar natural sua própria sociedade, a isolar um caminho perigoso de escape e resistência.
 
No atual grau de desenvolvimento, a absoluta contradição entre riqueza social e seu emprego destuidor está começando a penetrar na consciência das pessoas, até mesmo na consciência e no inconsciente  dirigidos e doutrinados. Sente-se, e sabe-se, que já não é necessário viver como instrumento de trabalho e recreação alienados. Sente-se, sabe-se que o bem-estar já não depende de um perpétuo incremento da produção. A rebelião dos jovens (estudantes, operários, mulheres) é a subversão, em nome da liberdade e da felicidade, de todos os valores pelos quais se guia o sistema capitalista. E esta rebelião está orientada para a busca de um meio ambiente natural e técnico radicalmente distinto, critério que está se convertendo em base de experiências subversivas: tentativas de comunidades norte-americanas com o fim de estabelecer relações não-alienadas entre os sexos, entre as gerações, entre o homem e a natureza; tentativas para sustentar a consciência de rechaço e renovação.
 
Neste contexto tão político, o movimento ecológico invade o espaço vital do capitalismo – a ampliação da área de lucro, do exagero, do exagero produtivo. Não obstante, a luta contra a contaminação se reabilita facilmente. Hoje quase não existe publicação que não exorte a ´salvar o meio-ambiente´, a acabar com a contaminação e o envenenamento. Criam-se numerosas comissões encarregadas de controlar os culpados. É claro que o esforço ecológico pode servir muito para embelezar o meio-ambiente, torná-lo mais agradável, menos repulsivo, mais suportável. Evidentemente é uma melhoria; mas também um fator de progresso porque, através desta melhoria, certo número de necessidade e aspirações começam a manifestar-se no próprio seio do capitalismo e a transformar a conduta dos homens, sua experiência, sua atitude frente ao trabalho. Se irão deixando para trás as reivindicações econômicas e técnicas, para passar a uma polêmica que questiona a própria moralidade de produção e o estilo de consumo.
 
Num contexto mais amplo, a luta ecológica se choca com as leis que regem o sistema capitalista: leis de capitalização crescente, de criação de uma mais-valia adequada, do lucro, da necessidade de perpetuar o trabalho alienado, a exploração. Michel Bosquet o expressou bem: `A lógica da ecologia é a negação pura e simples da lógica capitalista; não se pode salvar a terra pelos princípios do capitalismo, não se pode desenvolver o Terceiro Mundo segundo o modelo capitalista.´
 
Em última análise, a luta pela ampliação do mundo da beleza, da não-violência, da tranquilidade, é uma luta política. A insistência nestes valores, em restaurar a Terra como meio ambiente humano, é não só uma idéia romântica, estética, poética, que concerne aos privilegiados: é, hoje, uma questão de sobrevivência. É preciso que os homens aprendam por si mesmos que é indispensável mudar o modelo de produção e consumo, abandonar a fabricação de elementos bélicos, de coisas supérfluas, de artefatos, e substituí-la pela produção de objetos e serviços necessários para vida de menos trabalho, de trabalho criador, de prazer.
 
A meta continua sendo o bem-estar, mas um bem-estar não definido por um consumo cada vez maior a custa de um trabalho cada vez mais intensivo, e sim pela conquista de uma vida livre do terror, da escravidão em relação ao salário, da violência, do fedor, do barulho infernal no nosso mundo industrial capitalista. Não é o caso de embelezar o abominável, de ocultar a miséria, de desodorizar o mau cheiro, de plantar flores nos cárceres, nos bancos, nas fábricas: não se trata de purificar a sociedade atual, e sim de substituí-la.
 
A contaminação e o envenenamento são obras tanto mentais como físicas, tanto subjetivas como objetivas. A luta por um meio-ambiente que assegure uma vida mais feliz, poderia fortalecer nos próprios indivíduos as raízes de seu desejo instintivo de liberação. Quando os seres humanos não são capazes de distinguir entre o belo e o feio, entre o silêncio e o barulho, já não conhecem a qualidade essencial da liberdade, da felicidade. Na medida em que ela passa a ser mais meio-ambiente do capital que do homem, a natureza contribui para a consolidação da servidão humana. Estas condições têm sua origem nas instituições básicas do sistema estabelecido, para o qual a natureza é, antes de tudo, o objeto da exploração lucrativa.
 
Este é o irrecuperável limite interior de toda ecologia capitalista. A verdadeira ecologia desemboca em um combate ativo em prol de uma política socialista que deve conseguir atacar as raízes do sistema, ao mesmo tempo que o processo de produção e a consciência mutilada dos indivíduos.

Jardinagem Libertária na Cinemateca de Curitiba!

Posted in Uncategorized on abril 12, 2008 by goura

Segunda (14/04) – 19hs na Cinemateca de Curitiba!

Apresentação do vídeo EM 5 SEGUNDOS – um documentário sobre diferentes ações de tomada do espaço (Bicicletada / Jardinagem Libertária . . . ) que estão acontecendo enquanto você está lendo estas palavras.

 Interlux / Banzai Studio

Manifesto Livre 01 (meados 2007/08 – da contagem errada!)

Posted in Uncategorized with tags on abril 4, 2008 by goura

Dificilmente é necessário apontar aqui os diversos problemas pelos quais o mundo passa em nossa época. Quando o sistema de acumulação de mercadorias chega ao ponto de quebra atual, as suas deficiências se tornam evidentes, e mesmo seus aduladores mais hipócritas não escondem que, afinal, algumas coisas vão mal. É como um prédio cujas diversas rachaduras já se tornaram visíveis, quando os pilares estavam, na verdade, podres desde o princípio.
            Para além da caridade direitista que equaciona democracia com capitalismo, e da pseudo-revolta institucionalizada da esquerda sempre à procura de um novo Stálin, os mais diversos grupos de atuação têm surgido, à margem, experimentando novas conexões entre política e arte, subsumindo esferas separadas da experiência em algo maior e tão escamoteado pelas formas tradicionais de participação política, isto é, a vida.

É nesse contexto que surge a Jardinagem Libertária. Nós, praticantes, estamos há algum tempo exercendo nossas atividades, e é chegado o momento de declarar ao mundo nossos propósitos e métodos.

   O homem-objeto ressoa ainda o eco de quando tinha raízes, em si e no mundo, que o alimentavam. Ele angustia longinquamente o tempo que não tem mais para desentranhar mundos. O tempo esvaiu-se. É preciso continuar, continuar, continuar. O homem secou e se transformou em um quê que apenas é. Que não se sente sendo. A monotonia da arquitetura e os excessos do apelo comercial o mantêm entretido. Seu corpo, suas roupas, sua casa, sua identidade e seu planeta, cada qual etiquetado previamente sem que se saiba direito como (pouco importa, e além do mais, o que importa vem no pacote), chegam a ele facilmente e com desconto.
  
O homem-objeto olha a sua volta e uma poesia má o assola, sem que ele se dê muito bem conta disso. Um nonsense grosseiro e apressado o atropelou tempos atrás e ele não anotou a placa. Certamente corria atrás de algo que não lhe dizia respeito. E ele se pergunta: “o quê, afinal de contas, me diz respeito? Porque aquele pacote me chega todos os dias com quês que simplesmente não me dizem respeito?Mas sim”, dirão os encaixotadores, “trata-se do seu corpo, de suas roupas, de sua casa, de sua identidade, do seu planeta. Nós estamos lhe prestando um grande serviço. É tudo quanto você precisa e você deveria nos agradecer, trouxemos para você.” O homem-objeto agradece, dá uma gorjeta e sai caminhando pelas ruas. Talvez nas ruas seu corpo pudesse ocupar o espaço de que tanto precisa. Acontece que nas ruas nada lhe diz respeito, excetuando-se as ofertas e o código de trânsito. Ele então fica em silêncio, pois em seu corpo certamente está o espaço de que tanto precisa. Entranhar-se, o alimentaria. Mas um corpo marcado por anos de agressão simbólica não responde facilmente a um apelo desses. Ele então vai a uma loja comprar roupas novas para se sentir melhor. Vai comprar uma identidade ótima. Embora ainda angustie longinquamente o tempo que não tem mais para desentranhar mundos, pois ele esvaziou-se. Secou e se transformou em um quê que apenas é. Não se sente sendo. Vai até o pacote e procura algum lugar no planeta onde talvez pudesse ser, mas as notícias não são nada boas. O planeta vai de mal a pior.
  
O que faz o homem-objeto? O homem-objeto está empregado ou não está sendo empregado? Se não está, não pode atrapalhar, senão vai para o depósito de entulhos. O homem-objeto já passou por lá, atulhado com tantos outros. E também já foi empregado, sonhando tornar-se empregador. Até se dar conta que era apenas para se vingar de ter sido empregado como um objeto. Mas ele não deixaria de ser o objeto que é, e que não quer mais ser. Ele quer outra coisa. Ele angustia longinquamente o tempo que não tem mais para desentranhar mundos. Caso quisesse, o homem-objeto poderia deixar de sê-lo? E ele se pergunta, o que poderia meu corpo, minhas vestes, minha casa, minha identidade, meu planeta? Ele não responde a essas perguntas por que o atropelamento deixou marcas indeléveis em seu corpo, suas vestes, sua casa, sua identidade e seu planeta. Um nonsense grosseiro.
  
E nada o aproxima de tudo quanto vem até ele devidamente etiquetado. Nada. Uma poesia do nada o invade. Finalmente. E mergulhado no nada, o homem-objeto torna-se o nada. Deixara de ser. Finalmente, o nada. Finalmente. Um princípio possível? Finalmente algo que chegasse às suas entranhas e ecoasse raízes? Alimentando deveras? Desentranhado de um mundo alheio a ele, saboreia uma nova poética. Um abandono poético. Um delírio raro e claro. Nu, o homem percebe seu corpo. Um nada em potência de algo. E testemunha o vir-a-ser de um corpo nu em um corpo sendo. E o homem sai pelas ruas, nu. E toma, nu, um café na esquina. Percebe que também há árvores nuas pelas ruas. E confraterniza com elas! Os olhos umedecidos, o sangue pulsando forte com essa nova emoção. O resto do mundo quase quer acompanhá-lo, mas apressado continua e continua. Não é hora de divertir-se, e ele quase é mandado para o depósito de entulhos, por desviar os outros de seus objetivos-etiquetados. Um homem nu, que começa agora a sentir-se sendo, vai vestir-se. Naturalmente. E ele desenha suas próprias roupas, costura seus sapatos e não deixa que uma só linha reta negue a alegria em que se imergira. Do nada. Do nada ele reconstruiu sua identidade. Plantou árvores por todos os lados. E saiu pelo mundo ocupando os espaços vazios, observando e observando-se, desentranhando mundos e re-encantando as ruas.
  
Ia estação, e vinha. E o homem brindava e segredava: em sua casa nada permanecia. E frondoso se espraiava.

A Jardinagem Libertária está atenta ao nada, ao chamado dos buracos vazios, das frestas na calçada, dos espaços áridos, das praças incandescentes no verão, das crianças sem árvores para escalar, sem frutas para catar do pé…

O mundo anseia por ser paradisíaco, embora o trator passe por cima sem dó. Não se trata de pensar no assunto, mas do gesto, do impulso, do detalhe. Uma semente aqui, uma rega ali. Uma lua para esperar, uma estação de águas…

Uma escuta atenta mostra o que fazer. A gente aguça a sensibilidade e percebe que há espaços vivos querendo brotar. Então dá uma mãozinha, observa, cuida para que não morra. E não morre, pois cada dia é um recomeço.

Jardim de Volts encontra Jardinagem Libertária

Posted in Uncategorized with tags , , , , , , , , on abril 2, 2008 by goura

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Desenrolando algumas tentativas de sugerir rituais, carnavais ou qualquer tipo de liturgia-comunhão que pudessem dar conta de simbolizar e sensibilizar para questões sobre relações entre tecnologia, sociedade e corpo que há alguns anos temos discutido em nossas redes,
tentei conceituar já há quase dois anos uma brincadeira-manifesto que foi batizada de Jardim de Volts.

Jardim de Volts busca encontrar uma forma de entendermos a tecnologia (e a “ciência” que a tornou possível) como algo que não é uma magia da indústria e sim fruto da inteligência humana em observar a natureza. Então porque tudo se descontrolou tanto? Aquilo que poderia ajudar a humanidade a construir um mundo melhor ainda serve quase exclusivamente para gerar um consumo sem sentido, sem a menor responsabilidade social e sem medida da destruição do nosso instinto de integração com todo ecossistema.

Escrevi um rascunho de idéia que ao meu ver ainda continua muito crua:
( http://estudiolivre.org/tiki-index.php?page=JardinDeLosVolts )

Durante o encontro Submidiologia 2 a bricadeira foi tomando mais forma:
( http://pub.descentro.org/submidialogia_o_estudo_da_subversao_dos_meios )

Apesar de até hoje não ter elaborado melhor uma reflexão sobre a proposta tenho comentado aqui e ali e isso acabou rendendo alguns encontros.

Recentemente recebi um convite do pessoal que em Curitiba tem organizado uma ação direta muito esperta e divertida, que foi batizada de “Jardinagem Libertária”. Nesta o grupo celebra a busca por consciência ecológica promovendo encontros, bicicletadas, caminhadas e outras buscas onde revitalizam o espaço urbano plantando árvores pela cidade. O grupo chegou a criar uma praça num abandonado terreno baldio, que foi batizada de “Praça PIrata”…
( https://jardinagemlibertaria.wordpress.com/ )

Por duas vezes seguidas este ano, em Fevereiro e Março de 2008, tentei de alguma maneira conectar a proposta com a idéia do Jardim de Volts, e curiosamente fui surpreendido por contratempos que me fizeram refletir sobre o próprio processo que eu estava querendo trazer como discussão.

Da primeira vez uma chuva impedia que minha proposta de tirar energia de limões, usando computador pra transformar poéticas sonoras recombinadas de arquivos mandados para mim se realizasse. Da segunda, um HD com problemas atrasava toda a preparação do sistema para o tal.

Enquanto preparava o HD pra tentar realizar aquilo que eu imaginava como uma colaboração, eu fui aos poucos refletindo sobre o ritmo que eu mesmo me encontro agora, depois de tantos anos vivendo em função da internet e sua promessa de informação e comunicação total.

Pensei também na minha paranóia de “eficiência”, também parte de um sintoma de todo esse prometido “progresso”, que eu queria criticar com uma retórica tão metida a eloqüente.

Curiosamente no sábado de manhã eu fui aos poucos conseguindo deixar o sistema pronto, mesmo tendo freado um pouco meu ritmo, influenciado pela reflexão.

Chegando no lugar, me deparei com dezenas de pessoas, fazendo intervenções num muro de tapume de um outro terreno baldio (uma nova Praça Pirata?), e fui visitar a já citada e arborizada primeira Praça Pirata.

O fato é vendo a naturalidade com que a piazada tava lidando com aquilo, me caiu a ficha que toda aquele meu processo metódico de determinismo pra fazer um tipo de “demonstração” de expressões da eletrônica fora do processo industrial ainda estavam muito viciados na ilusão de “ter tudo sob controle” como prega nosso cego processo civilizatório.

Ao invés de imediatamente influenciar todo aquele esforço manual que estava acontecendo ali pra prestar atenção em algo completamente desviante que eu estava preparado pra fazer, eu decidi tentar ajudar nas intervenções, entender, compartilhar os processos e tentar pensar um pouco daquilo que o Jardim de Volts estava propondo a partir daquela experiência.

Naquele exato momento percebi o quanto as pessoas estavam aparelhadas com suas tintas, pás, estiletes, canetas, máquinas fotográficas, instrumentos musicais, impressos e outros utensílios que além de ferramentas super úteis para a ocasião, também contribuiram para o giro de toda uma economia industrial.

Todo aquele belo romantismo de desenhos nos tapumes do terreno baldio e plantar árvores no quarteirão em volta estava ali inevitavelmente sujeito a um processo industrializado que vai culminar num eminente uso do terreno pelo seu proprietário. Talvez toda a revitalização do quarteirão até ajude na especulação imobiliária do terreno.

Obviamente que toda essa reflexão pelo viés pessimista cai numa perspectiva totalmente radical de encarar o processo civilizatório do qual somos indissociáveis avatares, como em teorias do Anarco-Primitivismo ( http://pt.wikipedia.org/wiki/Anarco-primitivismo ) .

Não é díficil presumir porque reflexões tão profundamente realistas sobre a incapacidade do homem usar sua incrível inteligência para uma comunhão mais saúdavel com o planeta podem cair em surtos de violência irracional como a desesperada ação do Unabomber ( http://pt.wikipedia.org/wiki/Theodore_Kaczynski )…

No entanto, como pensar uma maneira não-violenta em que de dentro pra fora possamos redesenhar nossa função em construir uma “ciência” mais alinhada com as necessidades do mundo, e não apenas com o egoísmo consumista e imediatista que nos surge pelos tradicionais simulacros com a idéia de progresso e prosperidade?

Obviamente a resposta não é nada simples, mas acredito que ali na Jardinagem Libertária, entre algo de uma energia bastante pueril e ingênua de jovens querendo afirmar seus traços, haviam também esforços extremamente responsáveis, bravos e inteligentes de fazer sua parte para criar um mundo melhor e menos alienado do que está a sua volta.

Quanto aos Volts, aos poucos eles vão encontrando maneira de entoar mantras nos Jardins, buscando entender como esse conhecimento sobre a energia pura e canalizada pode ser menos destrutiva e mais esperta.

Por enquanto, fico bastante feliz em poder ver crescer o pé de limoeiro que plantamos ali ao lado da calçada naquele dia. Espero que ele possa um dia dar frutos. Que estes possam ajudar para que por trás dos tapumes ao invés de ignorantes templos de consumo apareçam mais Jardins Libertários.

glerm soares  – organismo@gmail.com

Um pedaço de terra, um pedaço de dignidade

Posted in ações on abril 1, 2008 by Thiago Carva

Rio de Janeiro. 

Ao pé do morro da Providência, bem próximo à Central, há um praça sem nome onde havia gangorras e escorregas quebrados, lixo amontoado e baratas. Esquecida por deus e pelos sucessivos governos que estiveram no poder, o local ganhou o apelido de “pracinha do crack”. Para ocupar o espaço público degradado e dar uma opção de lazer aos habitantes locais, os moradores das ocupações próximas Chiquinha Gonzaga e Flor do Asfalto resolveram organizar, para o dia 29 de março, um mutirão para retomar um espaço público que, até então, pertencia apenas às baratas.

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Rapidamente surgiu gente para ajudar. Vieram pessoas de outros bairros, trazendo enxadas, mudas de árvores e boa vontade. Vieram as crianças da favela, trazendo ajuda e alegria. Os moradores do morro e dos arredores da Central rapidamente arranjaram tintas e ferramentas. Os governos municipal, estadual e federal não vieram. E nem foram convidados.4.jpg 

O concreto, que impedia os pés das pessoas de encontrar a terra de onde vieram, foi quebrado para dar lugar à horta de chás e mudas de caqui, café, e outras da mata atlântica. O lixo que abrigava vetores de doenças, esse sim, foi levado para longe dos pés das pessoas.

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O dono da serralheria em frente contou com a ajuda de outros pela primeira vez. “Eu que plantei essas árvores que tem aqui”, disse ele. O pé de jabuticaba e o de jamelão que aquele senhor havia plantado não seriam mais as únicas árvores da qual se tirariam os frutos. “Eu vou pegar caqui aqui todo dia”, disse um menino da Providência depois de encher de terra preta a mudinha que acabara de ajudar a plantar. Aprendendo a plantar, o menino aprendeu a gerar sustento e riqueza de uma forma que não se ensina nas escolas e se deu conta, talvez pela primeira vez, que as frutas e os alimentos não nascem na fábrica e nos mercados.

Os brinquedos infantis foram consertados e pintados. As paredes, antes cinzentas e sem graça, agora encontram-se carregadas de cores e desenhos. O grafite permitiu-lhes que passassem a receber a atenção dos transeuntes e tornou em obra de arte visual o que antes era a arte arquitetônica da segregação: o muro.

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A região situa-se bem longe dos pontos turísticos. Se naquele pedaço de subúrbio não há a floresta da Tijuca, com suas matas e cachoeiras, agora há árvores e terra. Se não há as famosas praias cariocas, pelo menos agora possui um ponto de encontro. Se ali não estão os cinemas e o lazer das áreas ricas, pelo menos há brinquedos e conversa das boas. A antiga pracinha do crack, que depois da toalidade da reforma receberá um novo nome a ser escolhido, é agora um pequeno pedaço de dignidade.

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