Matéria a respeito da Jardinagem Libertária.

Uma pessoa ligada a um pequeno jornal alternativo de Porto Alegre entrou em contato para fazer uma entrevista a respeito da J.L. A seguir estão as perguntas e as respostas que foram enviadas. Como essa é uma ação coletiva e sem líderes, estou publicando o texto para que todos os participantes tenham a oportunidade de dar sua opinião sobre o que foi escrito.

Quais são os princípios da Jardinagem Libertária?

A Jardinagem Libertária não é um movimento. É uma idéia.
Eu não sei de onde veio essa idéia, mas me parece que ela estava no ar, no subconsciente coletivo. É uma idéia de várias pessoas e ao mesmo tempo, não é de ninguém.
Para alguns é uma idéia contagiosa, divertida e fértil, como se tivesse vida
própria. Para outros é irresponsável, um desrespeito à propriedade e à admnistração pública.
Uma coisa eu sei. Pode não parecer, mas a Jardinagem Libertária é uma idéia perigosa. E é assim por que ela nos faz olhar o mundo à nossa volta como sendo nosso.
Por muito tempo nós deixamos o controle das nossas cidades, das florestas
e do mundo como um todo às autoridades. E o que aconteceu?
Nas últimas décadas temos assistido enquanto o mercado imobiliário transforma nossas cidades em puleiros claustrofóbicos de concreto. Enquanto indústrias poluem nossos rios e mares. Enquanto as árvores, parques, calçadas, praças e espaços de convivência comunitária em geral são cobertos por asfalto para beneficiar o transito barulhento de máquinas particulares.
Esse não é o mundo no qual nós queremos viver, e nós estamos aqui para dizer aos donos do poder e aos donos do dinheiro que o mundo não é deles.
As ruas são nossas! E nós vamos retomar o controle sobre elas!
Nós vamos quebrar o concreto impermeável para deixar a Terra respirar. Nós vamos plantar árvores frutíferas para alimentar os pássaros e as crianças. Vamos plantar flores para as velhinhas e os amantes. Vamos convocar a vizinhança e criar uma horta comunitária para recobrar nossa autonomia alimentar e, quem sabe, nunca mais ver alguém passar fome por não ter dinheiro. Nós vamos reconstruir as cidades para que elas sirvam às necessidades que quem vive nelas. E não vamos pedir autorização para ninguém.

A Jardinagem Libertária está ligada a alguma organização/partido político?
Não

De quem foi a iniciativa de trazer a prática da Jardinagem Libertária para Curitiba?
De muitas pessoas; e também das gralhas azuis, que plantavam araucárias muito antes de nós pensarmos nisso; e das abelhas que sempre polinizaram as flores.
A Jardinagem Libertária sempre existiu, a única coisa que estamos fazendo é chamar mais gente para ajudar.

Como são as ações do movimento? Em Curitiba, quanto voluntários, em média, elas reúnem?
As ações são descentralizadas e espontâneas. Geralmente uma pessoa, ou um grupo faz um convite para uma ação em um local que precise ser revitalizado.
Os convites são publicados no blog e se espalham no boca-a-boca ou através de panfletos e a quantidade de voluntários que comparece em cada ação varia muito.
Algumas vezes um único Jardineiro Anarquista realiza uma pequena ação solitária. Outras vezes as ações acabam se tornando grandes festas com algumas dezenas de pessoas. A ação com o maior número de pessoas da qual eu participei tinha aproximadamente 30 jardineiros, artistas e ciclistas.
Então, nós tomamos terrenos abandonados a anos, que atraem atividades criminosas e criamos espaços de convívio comunitário. Transformamos calçadas estéreis e gramadões tediosos em jardins cheios de vida e diversidade. Ocupamos espaços reservados para os carros e fazemos piqueniques e distribuição de mudas. Qualquer coisa é possível.

Há outra cidade brasileira que participe do projeto?
Até o momento existem 6 cidades com grupos autônomos:
Curitiba (PR), Blumenau(SC), Campo Grande (MS), Porto Alegre (RS), São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ). Mas todas as semanas novos voluntários aparecem e se organizam sozinhos para criar novos grupos e ensinar e aprender juntos.

De que forma vocês acham que a Jardinagem Libertária pode contribuir para melhorar efetivamente a paisagem urbana?
Recolocando o ser humano em contato com a sua natureza interior. Fazendo com que ele volte a valorizar as árvores, a observar os pássaros, a admirar as flores em suas ruas. E então as pessoas não vão aceitar que aquela árvore que elas mesmas plantaram seja cortada para que se amplie o asfalto, ou que o parque onde suas crianças brincam seja transformado em mais um shopping center.

• Para participar das ações do grupo na sua cidade ou para criar um novo grupo, você pode acessar o blog:
https://jardinagemlibertaria.wordpress.com
Mas você não precisa usar a internet para praticar a Jardinagem Libertária. A única coisa que você precisa, é de vontade.

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10 Respostas to “Matéria a respeito da Jardinagem Libertária.”

  1. Maravilha, Walfrido!
    O texto está instigante.
    Eu me lembro que o termo ´Jardinagem Libertária´ surgiu durante uma pedalada aqui em Curitiba. Estava eu e o Fernando Rosembaum. Este avistou uma bromélia caída no chão, jogada no lixo na verdade, e não teve dúvidas: pegou a criatura e trouxe-a com ele até um local adequado aonde fizemos o seu plantio definitivo. Foi ali que nomeamos a ação pelo seu caráter libertário. É isso aí! A terra não tem dono e somos todos parte dela.

  2. Nossa estou empolgadissima para participar desse grupo, sempre gostei de plantas da terra… feliz, feliz, feliz, parabéns pela entrevista, suas palavras muito lindas…

    forte abraço,

    Namastê

  3. Puxa, concordo totalmente que essa idéia está no ar e vai passando por conexão molecular entre todos nós…andei escreveno sobre paisagismo Alimentar e já recebi muitas conexões inclusive esta que achei genial. Moro num sítio próx a uma comunidade negra. Faço a likagem AMBIENTAL, demonstro as flores do ora-pro-nóbis, no dia-a-dia das conexões trocamos idéias, mudas…já há pequenos jardinzinhos que, espontaneamente, vão sendo feitos. Um amigo, negro, diz que a idéia tem que pegar como um vírus….QUEM É O CONTATO EM PORTO ALEGRE???
    pRECISO DISSO!!!!
    aXÉ PRÁ TODOS QUE ESTÃO NESTA VIBRAÇÃO

  4. Acompanho vocês anonimamente há um tempo e nunca tinha comentado aqui. Dessa vez resolvi me manifestar por que sou de Porto Alegre e gostaria de ler essa matéria que fizeram com vocês. Como posso ter acesso a ela? Qual foi o jornal publicado?
    Ah, também concordo que a idéia pega como vírus! Em pouco tempo vou sair do meu quintal e passar para as calçadas aqui da capital gaúcha!!!Gostaria de saber o contato do grupo aqui de Porto Alegre. Depois também pretendo entrar em contato com vocês para um outro auxílio jornalístico.
    Muita paz

  5. Thiago Carva Says:

    Walfrido, parabéns pelo texto!!!

    Está perfeito.
    É um manifesto da Jardingem Libertária!

  6. Jardineiros Libertários,

    Muito boa onda, esta vossa! Li com atenção e já há algum tempo que sigo estas “ideias” (para usar a v. feliz expressão). No entanto, tenho algumas reticências quanto à aplicação real destas coisas.
    Por isso, queria perguntar-vos: como é que isso tem corrido? Que reacções tiveram por parte da população? E das autoridades? Conseguem que aquilo que fazem se mantenha por muito tempo?

    Uma vénia desde Lisboa!

  7. Juan Parada Says:

    Uma complementação a idéia do Walfrido seria a jardinagem libertária como mecanismo para a tomada das ruas, uma atitude de reivindicação do espaço público com características estéticas e de resignificação do espaço.
    Ocupação de lugares ociosos da cidade associados a práticas artísticas, somando e identificando a ação, transformando esses nichos em locais de experimentação e criação, áreas de convivência onde a essência humana é colocada em primeiro plano, conseqüentemente adquirindo características de intervenção urbana ou mesmo urbanística.
    Vejo não como uma ação assistencialista, mas sim uma maneira de pessoas comuns se posicionarem e exteriorizarem suas vontades com relação ao lugar em que vivem, sem pretensões de “salvar o mundo”, simplesmente despertando o indivíduo, fazendo-o sair do marasmo no qual somos condicionados e somados, se tornar uma ação coletiva que cause algum ruído.
    É certo que queremos que as plantas sobrevivam e cresçam na sua plenitude, mas muitas vezes o plantio de árvores se torna algo simbólico, demonstrando uma reação ao nosso modo vida doente.

  8. Bruneli Parashu Says:

    A JL como está ficando conhecida foi nomeada pelo Gourinha que eu lembro, pois o ser ouviu muito HC e leu muita Filosofia na vida por isso ele é assim. Existem algumas subdivisões no movimento incluindo a bicicletagem jardinária e a jardinália for fun, que tem adeptos mais radicais e ladrõezinhos de plantas ornamentais. Tudo em nome da ecologia, é claro. Acontece que a Prefeitura tem uma lista de árvores que podem ser plantadas na rua segundo o planejamento deles e até existe algumas razões, por exemplo pinheiros viram máquinas assassinas em dias de tempestade então é melhor não plantar perto de casas estacionamentos, coisas assim, porque um galho daqueles quebra facinho e pode virar um projétil na sua cabeça. Árvores como a amoreira quando dão frutas tingem o chão das calçadas e quem vai lavar? Algumas plantas têm raízes que podem derrubar muros e abrir fendas em calçadas e isso não é legal. Se você quer ser um bom jardineiro libertário eu acho que você tem que pesquisar as mudas com as quais vai mexer. Abraço.

  9. Adoro este termo, “Jardinagem Libertária”.
    Junta duas lindas palavras: Jardim e liberdade. Bonita também pelo seu caráter subversivo. Isso numa época em que a caretice se espalha por todos os lados disfarçada de ética. Já dizia o locão do Hundert Wasser que temos que devolver nossos telhados para o céu. Isso significa jardinar toda a superfície disponível, os telhados inclusive…
    Gente que tem jardim não precisa de ar condicionado.
    Pare de consumir e vá plantar flores!

  10. A proposta é fascinante.Já tinha visto algo parecido numa matéria sobre alguns bairros periferios de Nova Iorque. Então, o negoço é ir lá com uma marreta e mudas, humanizar o mundo .

    *Entretanto, devemos estar “vestidos” de todos os tramites constitucionais p reinvidicações de um espaço de natureza, lazer e tal.

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